quinta-feira, 11 de maio de 2017

Conhecimento para usar na argumentação

Cada época histórica tem sua concepção do que é o ser humano: o animal político de Aristóteles (384 a.G322 a.C), o ser de corpo e alma inseparáveis de Tomás de Aquino (1225-1274), o ideal de beleza e perfeição de Leonardo da Vinci (1452-1519). Assim, diferentes realidades e formas de conhecimento implicam em diferentes visões do ser humano. A modernidade trouxe enormes ^mudanças nas nossas concepções sobre a natureza, os seres vivos e o nosso organismo. Nesse cenário, a biologia moderna e outros campos a ela relacionados desafiam noções tradicionais a respeito de quem somos, influenciando a filosofia e as ciências humanas. Entre as áreas de maior impacto em tais disciplinas estão os estudos da evolução, a genética, a neurociência e a bioética.
Evolução

texto dissertativo no enem


Como se sabe, as teses de Darwin (1809-1882) são responsáveis por uma verdadeira revolução na maneira como o ser humano vê a si mesmo e a seu lugar na natureza. A espécie humana, tal como as demais, é resultado de um processo de seleção natural, tendo preservado características que, geração a geração, mostravam-se mais bem adaptadas ao ambiente. Outros primatas atuais, como chimpanzés e gorilas, compartilham conosco ancestrais comuns relativamente próximos. Ou seja, da perspectiva biológica, não seríamos, como se quer em certas tradições religiosas e culturais, criaturas especiais na natureza, e sim parte dela, estando sujeitos às mesmas leis e dinâmicas dos outros seres vivos.
Vale lembrar que não apenas algumas religiões consideram o ser humano um tipo de criatura especial. Por exemplo, o racionalista Descartes (1596-1650), considerado pai da Filosofia Moderna, sustentava que o ser humano tinha uma espécie de marca especial do criador. Essa concepção também está presente no senso comum. Quando dizemos que o ser humano destrói a natureza, não deixamos de considerar que estaríamos fora dela.
Contrária à tradição religiosa, a Teoria da Evolução teve um notável sucesso em termos de poder de explicação e foi fartamente corroborada. Há, por exemplo, evidências embriológicas, paleontológicas e genéticas que a sustentam. Mas há fortes movimentos religiosos que buscam refutá-la na esfera pública. Em pleno século XXI, é comum vermos debates entre evolucionistas e criacionistas na mídia dos Estados Unidos.




Mais estimulantes, contudo, são as discussões em torno do uso da Teoria da Evolução para a compreensão de diversos fenómenos sociais e individuais. Por exemplo, muitas teorias da Filosofia procuraram justificar valores morais em termos racionais ou práticos, em substituição às bases religiosas sobre o que seria o certo e o errado. Para o filósofo Immanuel Kant (1724-1804), até hoje um dos mais influentes pensadores sobre questões éticas, as normas morais teriam natureza racional e universal. Atualmente já se pode pensar que comportamentos considerados éticos, como a cooperação sotial, foram selecionados naturalmente. Grupos com indivíduos que agiam coletivamente, a longo prazo, teriam tido mais sucesso adaptativo, o que garantiu sua sobrevivência e a extinção dos que tinham outro comportamento.
Mesmo as escolhas de parceiros sexuais e amorosos, que acreditamos serem decisões pessoais e que dizem respeito à nossa interioridade, teriam forte aspecto evolutivo, pois estariam associadas a maior potencial de sucesso reprodutivo. Por exemplo, a região cromossômica conhecida como complexo principal de histocompatibilidade (MHC, na sigla em inglês), segundo alguns estudos, está envolvida na função olfatória e na escolha de parceiros, o que pode proporcionar descendentes com mais resistência imunológica. As conclusões indicam que, inconscientemente e como forma de garantir a sobrevivência dos descendentes, escolheríamos parceiros com MHCs diferentes dos nossos, ainda que fatores sociais e comportamentais possam ser preponderantes nessas escolhas.
Determinismo e liberdade
Direta ou indiretamente, essa nova compreensão do ser humano tem diversas implicações: uma das maiores diz respeito à noção de liberdade humana. Se o ser humano é parte da natureza, até que

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